Musicoterapia e Umbanda influenciam “Oceano em Nós”
Roger Marza
As ondas do mar que tanto embalam meu pensamento estão na superfície de nossos sentimentos, que só um mergulho mais profundo pode revelar que também somos mar por dentro. Sim, além de o corpo humano ser 70% água, nossas emoções formam correntezas que conectam todos os nossos territórios.
O EP “Oceano em Nós”, que será lançado dia 28 de fevereiro pela Tratore, nasceu das profundezas. Ao ler o livro “Definindo Musicoterapia”, de Kenneth E. Bruscia, percebi o quanto a música teve um efeito terapêutico sobre mim, no fazer musical, amparado pelos Orixás da Umbanda, que me orientaram nesse processo. Entre as diversas formas de Musicoterapia, Bruscia explica o papel da Improvisação, na qual o paciente expressa seus sentimentos por meio de um instrumento musical.
Na Musicoterapia pode haver arte, mas o papel principal é bem diverso daquele esperado do que se chama “música”, no qual há um ideal de perfeição. “Assim, dentro de um contexto clínico, o significado e a beleza das investidas musicais do cliente sempre serão encontrados dentro do cliente, do processo, do produto ou do contexto. Quando o cliente tem sentimentos difíceis por dentro, o produto musical pode refletir essas dificuldades, mas a beleza se encontrará no processo que ao qual o cliente se submeteu para expressar seus sentimentos. Quando o cliente tem que superar incapacidades para se engajar no processo, o produto musical torna-se belo, não porque a música é perfeita, mas porque a sua vitória é bela”, explica Bruscia, ao debater especificamente o processo terapêutico da Improvisação.
Tocar um instrumento é uma forma de bem estar e autoconhecimento. E, nesse sentido, entre pedras e espinhos, tenho sido o meu próprio terapeuta! É mais ou menos esse caminho que eu venho trilhando desde 2005, quando comecei a aprender sax. Sem conseguir repetir os sons dos meus amigos e dos discos que gostava, fui buscando improvisar, com a ideia também de que um Lá (A) tocado com sentimento vale mais do que mil notas. E, claro, buscando estudar música, partitura, aprimorar a escuta.
Músico? Talvez eu seja. O fato é que era a tristeza do jornalismo frente à vontade de viver de música que no dia 17 de dezembro de 2009 entrei no estúdio de rádio da Agência Estado, local onde trabalhei por 7 anos, e no início da noite gravei “Mídia Blues”, que fecha o EP. Resgatei essa gravação especialmente porque a capa de “Oceano em Nós” é uma fotografia do jornalista, músico e fotógrafo Marcelo Galli, que conheci na AE àquela época.
“Eu estava na Cidade do Cabo (praia de Camps Bay), na África do Sul, durante as férias. Aquele sol, aquele mar. Estava caminhando e observando os turistas e locais aproveitando mais uma tarde naquela cidade histórica do continente africano. Foi quando vi alguns jovens brincado no píer…”, conta o artista, que fez essa fotografia com uma máquina, mas que também faz cliques com seu celular, que são divulgados em seu canal no Instagram.
Conheci naquele tempo também a jornalista Djane Della Torre, uma grande amiga. Fiz uma música inspirada nela e seu companheiro Hugo Almeida, jornalista e escritor, que lançou em novembro de 2024 livro “A voz dos sinos”, que trata do sagrado, da mulher e do amor na ficção de Osman Lins (1924-1978), criador da peça “Lisbela e o Prisioneiro”, adaptada para o cinema por Gell Arraes. A música tem som da água do lago de carpas do Pelezão, em São Paulo, gravado no dia 29 de maio de 2024, enquanto ocorria uma partida de futebol. Esse som foi lançado em dezembro do ano passado, no meu site da Bandcamp.
“Oceano em Nós”, no entanto, nasceu de um trauma de infância: “Separação”, improvisação ao sax que gravei pensando em três movimentos, separados pelo som do mar de Ubatuba. Havia tempos que não tocava pensando numa história pessoal. E a ideia da música é a de expressar pureza, melancolia com final de alegria. Independentemente do que aconteceu, essa história me fez enquanto gente, pessoa da qual orgulho de ser.
A “Separação” é a segunda música, porque também pode representar esse momento de transição para a morte, que não significa o fim da vida. Por isso, o disco abre com Pepe y el Mar, singela homenagem que fiz para Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai que é um exemplo de ser humano, que está em cuidados paliativos. Muitos artistas vêm realizando homenagens a Pepe nas redes sociais e senti no coração o chamado.
Fechei os olhos e pensei num pôr-do-sol no mar que assisti de um terraço da Casa Pueblo, um lugar maravilhoso que visitei por poucas horas em Punta del Este, construída pelo artista uruguaio Carlos Páez Vilaró. Essa é outra história que, um dia, quem sabe eu possa contar! E, assim, termino o EP sem nunca fechar o Oceano que há em todos nós.
Foto: Marcelo Luiz Galli/Divulgação
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